Banhado

E então vem a pergunta que não se cala: Mas, para que poesia?

A linguagem poética é uma das mais interessantes. Ela mexe com os nossos conhecimentos, sentidos, intuição, sensibilidade. Traz reflexão, novos olhares, pontos de vistas ainda não imaginados e, o mais importante, nos coloca dentro de nós mesmos. Permite-nos sentir e concluir. Brincar com os signos das palavras. Aquece-nos enquanto leitor crítico-reflexivo, capaz de desnudar as falsas ideologias dentro de uma sociedade contemporânea tão cheia de informações. Como uma matéria de jornal, pode nos trazer acontecimentos cotidianos, através de outra perspectiva e ainda recheada de reflexões.

Este blog de poesia despretensiosamente será escrito com e para vocês, leitores de nosso jornal, com um único objetivo, o de despertar a poesia do seu dia. Aqui postaremos poemas contemporâneos, de diversos autores, pois o poema é o objeto poético, texto onde a poesia se manifesta, fazendo valer a verdadeira poesia, manifestação concreta e artística da alma humana. E em homenagem  a nossa querida cidade, pelos seus 250 anos, segue dois poemas onde a musa inspiradora, São José dos Campos reverbera em cada linha, brincando com o ontem, o hoje e um possível amanhã.

Banhado
por  Daniella Peneluppi

Vaga-lume do Vale
O que pisca além das montanhas,
Entre verde e o negro do horizonte?

Poste
Pastos
Pistas

Casa de pessoas a passar pelo tempo
Sonho meio aos campos

Casebres de árvores mortas
E pedaços de barro
Casarões de telhados de palácio
E ladrilhos a brilhar

Construção em linhas retas…

Terá sido antes… Baía?
Parte de Oceano?
Haverá fósseis de dinossauros?
Sambaquis escondidos pelo vento?
Conchas pequeninas descoloridas na neblina?

Ao longe,
Ouça…

Apertado apito de trem
Emaranhado em memórias e montanhas

Escorro pelos morros com papelão
Entre ervas daninhas que dormem
Dentes de leão
Orvalho em brisa e
Bolhas de sabão

 

A flauta que me roubaram
por Cassiano Ricardo

Era em S. José dos Campos.
E quando caía a ponte
eu passava o Paraíba
numa vagarosa balsa
como se dançasse valsa.
O horizonte estava perto.
A manhã não era falsa
como a da cidade grande.
Tudo era um caminho aberto.
Era em S. José dos Campos
no tempo em que não havia
comunismo nem fascismo
pra nos tirarem o sono.
Só havia pirilampos
imitando o céu nos campos.
Tudo parecia certo.
O horizonte estava perto.

Havia erros nos votos
mas a soma estava certa.
Deus escrevia direito
por pequenas ruas tortas.
A mesa era sempre lauta.
Misto de sabiá e humano
o vizinho acordava
tranqüilo, tocando flauta.
Era em S. José dos Campos.
O horizonte estava perto.
Tudo parecia certo
admiravelmente certo.

2 ideias sobre “Banhado

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